TRANSPORTE

Comprei a minha passagem em 5 de dezembro de 2019 para os trechos GRU - IST - DEL - IST - GRU, com ida em 292, às 23h55, e retorno em 283, às 6h55. Eu já tinha ido antes para a Ásia, em 2017, e me sentia preparada para outra experiência cultural interessante e desafiadora tão longe do Brasil. O voo de GRU para Istambul duraria 12h40. E o de Istambul para Delhi, 5h55.

Outra opção era comprar a passagem com a Ethiopian Airlines. Os preços eram próximos. Mas, se acontecesse algum imprevisto, eu preferia ter que passar algumas horas ou um dia na Turquia. Depois, conversando com uma brasileira que vai frequentemente para a Índia (porque tem um trabalho lá), ela me disse que a Turkish Airlines é realmente muito melhor do que a companhia aérea da Etiópia.

Já para o deslocamento interno eu não considerei viagens de ônibus porque sempre são demoradas - e eu não tinha muito tempo na Índia - e envolvem um risco maior, ainda mais em um país com infraestrutura precária. Até hoje me lembro de uma turista me contar, no Vietnã, que o ônibus dela tinha atrasado porque tinha atropelado um animal na estrada. Poderia ser mais grave. Não sei quais são as empresas de ônibus da Índia nem seus preços.

Comprei alguns trechos com as empresas aéreas locais, como IndiGo, Air India e SpiceJet. Nos meus voos, elas foram pontuais e não perderam a minha bagagem despachada. Cheguei a considerar viajar um trecho de trem e, para isso, eu até me cadastrei no site oficial da IRCTC. E, sim, você precisa pagar uma taxa apenas para o cadastro. Só que o site rejeitou meu cartão de crédito e todas as outras formas de pagamento.

Um indiano do CouchSurfing estava me orientando e se ofereceu para pagar para mim, mas eu preferi não confiar. Talvez uma alternativa seja comprar com uma agência de viagem. No fim, surgiu um voo barato, não tão cedo, e eu comprei o trecho de avião mesmo.

Por fim, para se locomover na própria cidade, eu usei principalmente o TukTuk, também bem popular em outros países da Ásia, como Tailândia e Cambodia. Claro, é preciso sempre barganhar o preço. Como referência de preço, você pode pesquisar quanto daria o trecho no aplicativo Ola e pedir um valor abaixo, já que o TukTuk é um veículo mais barato e gasta menos gasolina. Para pagar o TukTuk, o ideal é você já tenha o dinheiro trocado, porque alguns motoristas não gostam de dar troco.

Aliás, o Ola é o Uber indiano e funciona muito bem. Se eu não me engano, o Uber funciona lá também, mas o Ola é mais difundido. Eu usei o Ola três vezes, sempre quando eu precisava ir do hostel para o aeroporto de madrugada porque tinha voos muito cedo. Pagava uma taxa para reservar a minha viagem para a madrugada e tudo dava muito certo. E eu pagava tudo em dinheiro, não precisei cadastrar cartão de crédito. Só recomendo novamente que você já tenha o dinheiro trocado.

ROTEIRO

Fiz a pesquisa para a minha primeira viagem à Índia em janeiro e fevereiro de 2020, e eu tive bastante dificuldade em encontrar uma série de informações. Acabei considerando alguns blogs de viagens, uns vídeos de youtubers, algumas reportagens e alguns livros.

Defini que o roteiro seria: Delhi - Jaipur - Rishikesh - Mumbai - Goa - Delhi. Como eu gastaria muitos dias em Rishikesh, eu optei por apenas fazer um bate e volta a Agra, saindo de Delhi. Agra era importante por causa do Taj Mahal - e eu não queria sair da Índia sem conhecê-lo.

Assim, eu teria contemplado o Golden Triangle (o Triângulo Dourado, na tradução literal - Delhi, Agra e Jaipur). E deixaria de visitar Amritsar e Varanasi para dar preferência para uma cidade maior (Mumbai) e a uma cidade aparentemente mais festeira (Anjuna, no norte de Goa). Eu sabia que boa parte dos turistas preferia circular mais pelo Noroeste da Índia, incluindo ainda outras cidades do Rajaquistão, como Jodhpur, Ranakpur, Udaipur etc.

Ou que quem fosse a Mumbai (também chamada de Bombaim) talvez também desse um pulo em Pune, em especial os ainda seguidores de Osho.

Me falaram também que, se você curte a vibe de Goa, talvez devesse incluir algumas cidades do estado de Kerala, ainda mais ao sul. Inclusive, eu me lembro de uma americana do Oregon ter me perguntado em Rishikesh, após ouvir o meu percurso, se eu era uma pessoa “mais na pegada espiritual ou na pegada de festa”? Falei que queria conhecer de tudo e ser eclética. Hoje, eu já acho que prefiro a pegada festeira mesmo, e mudaria o meu roteiro.

VISTO PARA BRASILEIROS

Pela internet, eu solicitei a carta para receber o visto no aeroporto de Delhi em 3 de fevereiro de 2020. Aprovaram em menos de 24 horas. Aliás, o site do governo indiano só me permitiu pedir essa carta (“Eletronic Travel Authorization - ETA”) quando faltava menos de um mês para a minha chegada a Delhi.

O site para conseguir o E-Visa é absurdamente ruim e há vários sites não oficiais que oferecem o mesmo serviço, só que com um valor absurdo (ou que são golpe de internet). É preciso muito cuidado para não entrar no site errado. Paguei 25 USD.

Meu único trabalho foi ir até a copiadora perto de casa para ter uma imagem boa do meu passaporte digitalizado. Eu já tinha uma foto no estilo 3x4 e só precisei cortar para adequar ao tamanho solicitado. O passo a passo bem explicado estava no blog de viagem “Casal Wanderlust”: https://casalwanderlust.com.br/como-solicitar-o-visto-para-a-india-atraves-da-internet-passo-a-passo/

Levei o papel e deu tudo certo. É importante levar esse papel na bagegem de mão porque ele é solicitado tanto no check-in quanto na chegada à Índia. Não sei se eles aceitam quem leva o arquivo no celular, mas como a internet no aeroporto do exterior nunca é garantida, eu preferi levar em papel mesmo.

INTERNET

No meu segundo dia em Delhi, eu peguei o metrô (aliás, você precisa passar em um detector de metal para usar o metrô) e fui até a região de Connaught Place. O comércio costuma abrir apenas por volta das 10h. Para quem estava com jet lag, como eu, e costumava acordar às 4h ou às 5h, isso era sempre uma dificuldade nos primeiros dias. Vale bastante a pena ter internet no celular.

Fui a uma loja que vendia internet para o celular da Vodafone IN. Havia duas opções: 1) 496 INR para o mês com internet, sendo 1,5 GB por dia; e 2) 850 INR para o mês com internet, sendo 3 GB por dia. Eu optei pelo mais barato e super foi suficiente (mesmo quando não havia WiFi no quarto, mas eu também não vi Netflix durante a viagem).

Para conseguir a internet no celular, foi preciso estar com o passaporte e tudo mais. Nunca fiz um procedimento tão longo assim. Pediram até o telefone de algum amigo indiano como recomendação (eu dei o do cara que conheci no metrô) e ligam para ele para pedir o código enviado por SMS.

Tiraram foto do meu visto e dos dados do meu passaporte. Depois, ainda tiraram uma foto minha, outra foto do atendente e pediram os meus endereços no Brasil e na Índia. Todo esse procedimento durou mais de 30 minutos.

CÂMBIO

Eu troquei USD e EUR por INR em diferentes momentos da viagem. Em Delhi, eu consegui mais dinheiro no meu segundo dia de viagem, quando fui até a região de Connaught Place. O pouco dinheiro que eu tinha trocado no aeroporto (20 USD) já estava acabando, e a cotação do aeroporto nunca é boa.

Desconsiderando eventuais comissões, no aeroporto de Delhi, eu paguei 1 USD para 65 INR. Depois, eu consegui 1 USD para 71 INR e também 1 USD para 72 INR. Paguei ainda 1 EUR para 81,5 INR, depois 1 EUR para 80 INR e, já no fim da viagem, 1 EUR para 78 INR.

Acabei não trocando mais dinheiro no primeiro dia de viagem, porque eu insisti em achar um lugar que tivesse nota fiscal. Só que eu não achava lugar com nota fiscal, e o meu dinheiro estava acabando. Por isso, eu fui a um lugar físico, tirei foto da fachada e filmei discretamente a entrega de dinheiro. Infelizmente, vários lugares realmente não têm nota fiscal (e não exigem o passaporte).

Para me ajudar com a conversão dos valores, eu usei principalmente o aplicativo “Oanda”. Eu sempre usei o site deles, mas foi a primeira vez que baixei o aplicativo. Funcionava mesmo sem internet.

COMIDA

Uma das principais razões para eu ter me interessado pela Índia (assim como pela Tailândia e pelo Peru) foi a comida. Eu já fui a alguns restaurantes indianos em São Paulo e sempre gostei muito. Em especial, o CI Restaurante Indiano, em Campo Belo, onde eu conseguia descontos pelo aplicativo Primeira Mesa.

Na Índia, eu realmente comi muito bem. Muito bem. No café da manhã, eu tomava sempre um masala chai - que você encontra em todos os lugares. Também experimentei Salted Lassi, Banana Lassi e Avocado Lassi. Tomei apenas uma única cerveja na Índia: Kingfischer (lager). Foi uma raridade, porque fiquei com a impressão de que eles vendem pouca cerveja e quando o fazem é sem álcool (isso certamente é diferente em outras partes da Índia).

Nas refeições, os meus preferidos eram o Chicken Butter e também o frango feito em tandoor (tipo de forno). O arroz de lá (Jeera) também é mais gostoso do que o brasileiro. Comi ainda os vegetarianos Palak Paneer, Paneer Butter Masala, Paneer Tikka Masala, Maharaja Platter, entre outros.

Em vez de arroz, é comum também pedir alguns pães, também deliciosos. Ah, e vale lembrar que em Rishikesh não há carne nem álcool em qualquer estabelecimento. Após mais de 10 dias nessa cidade, eu nunca desejei tanto comer frango.

Mas lá um restaurante ótimo, ainda com vista para o Rio Ganges, era a “Devraj Coffee Corner German Bakery & Restaurant”, que eu conheci ao ler o livro “Karmatopia: Uma viagem à Índia”, da jornalista Karla Monteiro. Inclusive, no livro, a autora menciona uma série de drogas, principalmente haxixe, mas ninguém nunca me ofereceu drogas na Índia e apenas uma vez durante toda a viagem eu senti cheiro de maconha. Pode ser ingenuidade minha, mas certamente não era nada tão escancarado quanto o que eu vi na Tailândia e no Cambodia.

Continuando… Eu li na internet que, quando o atendimento no restaurante é bom, a gorjeta de 10% é muito boa. Normalmente ela não está inclusa na conta. Às vezes alguns impostos também só são contabilizados na hora de fechar a conta (como nos EUA). Por outro lado, no meu último dia na Índia, quando eu pedi delivery de comida pela primeira vez, eu perguntei ao indiano da recepção se ele costuma dar gorjeta, e ele disse que não.

HIGIENE

Há muitas opções de comida de rua na Índia, mas eu não comi nenhuma vez por uma questão de precaução. Eu tive uma intoxicação alimentar séria em Chiang Mai, na Tailândia, em janeiro de 2017, e não queria passar por uma situação parecida. Os preços da Índia são tão baixos que realmente não vale o risco.

Eu tinha seguros de viagem e de saúde expedidos pela AIG, que são gratuitos para quem compra a passagem aérea com determinados cartões de crédito. Na Tailândia, eu não tinha gerado o seguro e tive que pagar o equivalente a R$ 400 para receber soro na veia e comprar remédios em um hospital privado.

Apesar disso, eu passei mal uma vez e foi bem tranquilo. Pedi um suco de romã em uma loja em Rishikesh e já na hora senti que havia algo errado. Sentei e esperei um pouco. Assim que levantei e comecei a andar, eu vomitei todo o suco. Depois, fiquei completamente bem de novo. Certamente, a água usada para fazer o suco não era filtrada (e/ou os recipientes estavam sujos).

Desta vez, eu também levei uma bolsa apenas com remédios: buscopan, floratil (foi o único que acabou durante a viagem), azitromicina, coristina, benegripe, tylenol, resfenol, dorflex, adesivo para dor muscular, spray para dor muscular, spray para a garganta de gengibre e mel, sachê para chá com paracetamol, pastilha para a garganta e band aid.

Ah, eu não precisei me preocupar com o banheiro turco (ou aquele buraco no chão para as fezes). Nos aeroportos, normalmente você tem as duas opções. Eu fui a esse tipo de banheiro apenas uma vez, no aeroporto de Dehradun (o mais próximo a Rishikesh) e já tinha ganhado alguma prática em Marrakesh, no Marrocos, em 2013. Eu levei sempre um pacote de lenço umidecido (usado principalmente em bebês) para os lugares porque às vezes você não encontra papel higiênico.

Eu também vi bastantes banheiros públicos na Índia, mas eles não pareciam limpos e eram frequentados principalmente por homens. Cheguei a ver ainda alguns homens fazendo xixi na rua.

Talvez um dos pontos de higiene que mais tenha me incomodado foi o banho de balde. Você tem alguns baldes no banheiro e os enche de água. Depois, joga no corpo. Não há um chuveiro, e sim torneiras. Confesso que dava um pouco de preguiça ter que tomar “banho de balde” todo dia.

CULTURA

Nos primeiros dias, eu estranhei muito e acreditava que os indianos estavam pedindo para eu tirar uma foto deles. Faria sentido. Era dois garotos e uma mulher mais velha, e eles queriam que eu tirasse a foto da família. Mas não. Eles queriam tirar uma foto comigo. Os dois garotos tiraram. E durante a viagem eu fui parada muitas vezes (exceto em Rishikesh) para tirar fotos.

Na Tailândia, isso só tinha acontecido uma vez, e eram crianças. Enfim, eu sempre achei muito estranho, porque eles eram tímidos (às vezes não pediam a foto e faziam com que eu aparecesse no fundo da imagem) e também não perguntavam de qual país eu era ou qualquer outra coisa. Só queriam a foto.

Há muitas questões culturais para se aprender sobre os indianos, e eu me sentia um pouco mais preparada porque tinha lido “Índia: da miséria à potência”, da jornalista Patrícia Campos Mello. O livro não é recente (2008) e certamente muita coisa mudou desde então, mas a leitura flui muito rápido e vale mesmo dedicar 3h/4h para o livro.

Por exemplo, eu já imaginava ver muitos homens nas ruas da Índia. Mas foi algo ainda mais assustador. No começo, eu tinha feito uma estimativa de ver uma mulher a cada 10 pessoas na rua. Depois, eu mudei a estimativa para uma mulher para cada 20 pessoas na rua. No fim da viagem, eu já achava que era uma mulher a cada 30 pessoas na rua.

E o livro me ajudou a entender mais sobre isso. Ou mesmo sobre a marca vermelha na testa de parte das mulheres. Ou sobre a relação dos indianos com as castas. Ou sobre a pobreza e a falta de saneamento em algumas cidades. Ou sobre a aposta dos indianos na tecnologia. Embora, é claro, o ideal, na minha opinião, é sempre também conversar com os locais para conhecer melhor a cultura.

Optei por não usar calça jeans nem short ou regata nas ruas da Índia. Eu usei calças mais largas e também blusas que iam preferencialmente até o cotovelo. Usei short apenas para dormir no hostel e no ashram. Achei simpático que algumas mulheres indianas usem o Sari, que mostra parte da barriga, mas não quis gastar o dinheiro para comprar mais roupa que eu só usaria na viagem.

IDIOMA

Tive mais problemas de comunicação na Índia do que eu imaginava. Eu já havia conhecido três indianos que trabalham na área de tecnologia em San Francisco, nos EUA, em 2015, e eles falavam inglês muito bem. Depois, vendo alguns tutoriais de programação na internet, eu cheguei a mudar a minha impressão e percebi que o sotaque era difícil de entender.

Mas, chegando lá, realmente era difícil. A maioria dos indianos estava feliz em te ver (muitos ainda estranhavam a minha presença em Delhi), em ganhar dinheiro com os turistas e se esforçava mesmo para falar inglês ou para entender. Só que há muitas limitações. Quando eu queria fazer rafting em Rishikesh, por exemplo, eu perguntei a que horas sairia o bote. O cara só me falava a duração do trajeto, seja em minutos, seja em quilômetros. É preciso paciência para não se estressar.

E, quando a ideia é dialogar com o homem do TukTuk, eu costumava preferir mostrar o mapa ou falar o nome do lugar. Em pouco tempo na Índia, você deixa de construir frases em inglês para falar algumas palavras. “Paharganj, 100”, em vez de “Eu gostaria de ir a Paharganj e posso pagar 100 INR”.

ASHRAM

Eu escolhi o local em que faria o meu retiro após pesquisar na internet e ler dois relatos da experiência em blogs de viagens. O preço era justo, e eu poderia me desconectar um pouco das notícias e do estresse. Sabia que moraria no local por sete dias e que as refeições estavam inclusas.

Não é possível resumir os meus dias de ashram (consegui ficar até o fim) em poucas linhas e, ao mesmo tempo, essa experiência é algo muito pessoal.

CORONAVÍRUS

O número de casos positivos de coronavírus cresceu absurdamente em tão pouco tempo. Eu saí do Brasil em 292, e o primeiro caso confirmado foi registrado em 262. Eu nunca poderia imaginar que a situação perderia o controle a ponto de fazer o mundo inteiro parar. Eu tive os primeiros indícios do agravamento quando ainda estava no ashram, e vi que o número de casos estava aumentando na Europa e que a Merkel havia dito que 70% da população alemã seriam contaminados.

Quando eu saí do ashram (153), eu vi que alguns turistas europeus estavam preocupados e queriam retornar aos seus países. No meu hostel, ainda havia muitos brasileiros. Tudo parecia caótico para a União Europeia, mas a princípio ainda levariam algumas semanas para a situação se agravar no Brasil.

Apenas em Mumbai eu percebi que a situação estava ficando mais séria, porque um dos principais comércios foi proibido de abrir a partir de 183. E também fiquei espantada quando, para entrar no Starbucks, os funcionários mediram a minha temperatura e pediram para eu passar álcool-gel. Em dois mercados que encontrei abertos, eles também mediram a minha temperatura.

Mas, apesar disso, ainda havia muita gente nas ruas e também no trem. Eu não sofri nenhuma discriminação e todos os indianos continuavam me tratando muito bem. Não havia lockdown.

Eu só percebi que eu poderia ficar presa na Índia em 193, quando eu li na imprensa indiana (“Times Now”) que os voos internacionais seriam suspensos de 223 a 293. E na hora, é lógico, eu imaginei: eles vão manter os voos suspensos por bem mais tempo, e não só por uma semana.

O meu voo de volta seria em 283, e a Turkish Airlines não havia me comunicado nada. Já na hora eu mandei um e-mail para a Turkish, liguei para o callcenter e preenchi formulários para transferir o meu retorno para 213. Também enviei um e-mail para a Embaixada do Brasil em Delhi e para o Consulado do Brasil em Mumbai (onde eu estava naquele dia). A Turkish me respondeu e confirmou que o meu voo havia sido antecipado. Consegui, eu pensei.

Mantive contato com a embaixada pelo WhatsApp desde 193, e contei que tinha conseguido antecipar o voo e que aparentemente tudo daria certo. Eu estava em contato ainda com outras duas brasileiras (uma amiga é conhecida do meu tio; e a outra, filha da amiga da minha mãe). Procurei as duas, que também tentavam voltar ao Brasil desesperadamente, sem qualquer garantia naquele dia.

Voei de Mumbai para Delhi na manhã de 203, com 18h de antecedência para nenhum imprevisto me impedir de entrar no avião e voltar ao Brasil. Fiquei em um hotel barato perto do aeroporto e, preocupada, mal consegui dormir.

RETORNO ANTECIPADO

Não imaginei que viveria esse momento de isolamento social praticamente no mundo inteiro. Também não imaginava que isso aconteceria logo durante a minha viagem e que eu teria de antecipar o meu retorno ao Brasil. E que retorno caro.

Depois de confirmada a minha antecipação do voo para o Brasil, eu fiquei bastante aliviada e não conseguia imaginar que tudo daria certo e que tinha sido tão fácil. Contei para muita gente que voltaria e que não havia motivos de preocupação.

Após embarcar na manhã de 213, o avião chegou a sair do portão e seguir para a área de decolagem. Eu estava com tanto sono que nem estranhei tanto que, depois, o avião tenha retornado ao portão. Eu achei que algum passageiro ainda precisava embarcar ou que havia algum problema técnico. A Turkish não chegou a servir bebida nem comida e ficamos mais de 4h esperando algum comunicado.

Eu estava preocupada em perder a conexão e ficar presa no aeroporto de Istambul. O comandante falava que eles estavam consertando algo. Achei que talvez trocassem a gente de aeronave por algum problema técnico. Até que mandaram a gente sair do avião e voltar ao aeroporto.

No aeroporto, fomos comunicados que o voo estava cancelado e que o Aeroporto de Istambul havia suspendido os voos. Todos ficaram desesperados. Eu comecei a identificar e organizar os demais brasileiros para tentarmos achar uma solução juntos. O Vitor, da embaixada, que já estava em contato comigo desde 193, me ligou e pediu para eu também coletar o endereço em que cada pessoa ficaria em Delhi.

Eu não queria ficar em endereço nenhum. Tinha acabado de gastar todas as minhas rúpias indianas no Duty Free para ao menos ter uma pequena lembrança para a família. Eu sabia que, se eu não embarcasse naquele dia, eu poderia não sair da Índia tão cedo. Assim como outra brasileira que estava no grupo, eu tentei comprar o único voo que tinha naquele dia e que poderia ir ao Brasil: DEL - DXB - GRU.

Como eu não tinha feito compras no cartão de crédito nas últimas semanas, a minha tentativa de compra foi considerada fraude. Tentei de novo e não rolou. Era madrugada no Brasil, mas eu tive que acordar a minha mãe. Pedi para ela comprar a passagem para mim naquele voo da Emirates.

Novamente, o cartão de crédito dificultava a compra e exigia da minha mãe um itoken. Enquanto isso, depois de recuperar a mala despachada, eu corria para o balcão de uma agência de turismo para tentar comprar a passagem. O atendente não conseguia me entender e achava que eu queria ir para a Espanha. Pedi para escrever a sigla do aeroporto: GRU. Ele disse que não havia passagem.

No Brasil, minha mãe conseguiu falar com o callcenter do cartão de crédito e pediu para liberarem a compra. Quando ela foi tentar comprar a passagem da Emirates, a única opção era a passagem na primeira classe e o valor era seis vezes mais caro. Com o medo de ter uma filha presa na Índia, minha mãe comprou a passagem.

Voei de DEL - DXB na primeira classe do Boeing 777-300ER. Em Dubai, fiquei 14h esperando o próximo voo. O hotel e o lounge, a que os passageiros da primeira classe têm direito, estavam fechados. Depois, embarquei na primeira classe do A380-800 (aquele de dois andares) para o trecho final de DXB - GRU. Comi salmão defumado, tomei Chandon, água Perrier e Evian, fui muito bem tratada e cheguei aliviada ao Brasil para a minha quarentena. Mas certamente bastante traumatizada.